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  • Fabio Menezes

Kobe Bryant: o luto no esporte profissional

Atualizado: Jan 30


No último Domingo, 26 de Janeiro, o mundo do esporte perdeu Kobe Bryant em um acidente de helicóptero, onde outras oito pessoas faleceram, incluindo Gianna, a filha de 13 anos de Kobe. A notícia chocou a todos, sobretudo no basquete, onde Kobe era (e continua sendo) um dos maiores ídolos e considerado um dos grandes jogadores da história da modalidade. Inúmeras homenagens estão sendo compartilhadas pela internet, feitas por jornalistas, jogadores do passado e da atualidade e por fãs. Apesar de toda a minha admiração por Kobe e por tudo que ele conquistou no esporte e vinha construindo após sua aposentadoria, neste texto gostaria de tocar num outro ponto: o luto vivido pelos demais atletas e a necessidade de lidar com esse luto em meio a competição.


Como dito anteriormente, Kobe foi um dos grandes ídolos do basquete e é admirado por muitos (se não por todos) os jogadores que hoje competem na modalidade, a maioria dos quais cresceu vendo ele jogar. À exceção dos mais jovens, muitos chegaram a jogar contra Kobe, que se aposentou recentemente, em 2016. Assim, a perda súbita e trágica de um ídolo e, em muitos casos, de um amigo, naturalmente foi sentida de maneira intensa. Uma particularidade da temporada da NBA é que há jogos praticamente todos os dias, e o dia da morte de Kobe não foi uma exceção. Apenas algumas horas após a confirmação do falecimento, diversos times tiveram que entrar em quadra para jogar, com os jogadores visivelmente emocionados. Embora a partida seguinte dos Los Angeles Lakers (time que Kobe defendeu por toda sua carreira e do qual é o maior ídolo) tenha sido adiada, os demais jogos têm transcorrido normalmente. Os jogadores falaram sobre a dor da perda de Kobe:



Neste contexto, é importante falar um pouco sobre o processo da vivência de um luto. Para isto, recorreremos ao texto de Freud de 1915, “Luto e Melancolia”. Para Freud, o luto é a reação à perda de uma pessoa amada ou algo que ocupe esse lugar privilegiado, como um ideal, por exemplo. Viver um luto causa efeitos no indivíduo, podendo inclusive afastá-lo de suas atividades cotidianas ou diminuir o interesse por outros aspectos da vida. Ainda assim, para Freud, não se trata de uma patologia e não é algo que deva necessariamente ser tratado por um médico: “confiamos que será superado após certo tempo e achamos que perturbá-lo é inapropriado, até mesmo prejudicial” (Freud, 1915/2010, p. 172). Normalmente, para Freud, haverá a superação do estado de luto, processo que leva algum tempo, variando de caso para caso.


No caso atual, porém, por se tratar de uma tragédia ocorrida no meio da temporada, não foi possível dar aos jogadores o tempo necessário para viver o luto. Por diversos motivos, não é possível interromper o campeonato para que cada um possa lidar com o luto da sua maneira e no seu tempo. Alguns jogadores pediram para não jogar a partida seguinte, como Kyrie Irving, amigo próximo de Kobe, mas a maioria entrou em quadra e competiu. O que se observou então foram tentativas individuais e coletivas de se lidar com a tristeza e com o luto. Foram feitas diversas homenagens: estádios e monumentos iluminados nas cores do Lakers, mensagens em redes sociais e nos tênis e homenagens no início de cada partida.


Na impossibilidade de se afastar da prática para lidar com o luto (o que não ocorre apenas no meio esportivo), é importante que se abra o espaço para que cada um elabore o ocorrido da sua maneira particular. Isso inclui as formas de se expressar (entre elas escolher o silêncio) e também buscar um sentido em continuar jogando apesar da dor da perda. Algo que foi mencionado por alguns jogadores, como Kawhi Leonard, foi “Kobe ia querer que eu jogasse”. É importante que dirigentes, comissão técnica e mesmo a mídia deem espaço para essa elaboração individual, para que o luto e a continuidade da prática esportiva sejam vividos de maneira menos dolorosa e mais saudável.


Finalizando, casos como o da morte de Kobe Bryant são perdas coletivas, por se tratar de um ídolo de todos. Sendo assim, o luto é vivido por todos os jogadores e envolvidos, embora cada um vá vive-lo de maneira particular e única. Ainda assim, ao longo da carreira esportiva, cada atleta pode viver outros lutos pessoais, e que não serão compartilhados por outros. Há diversas perdas e mudanças que podem ocasionar um luto, desde transições de carreira (a mudança de categoria ou mesmo a aposentadoria), mudanças de equipes ou cidades, demissões, não convocações para competições ou mesmo derrotas e lesões. O que foi mencionado nesse texto pode ser aplicado a tais casos, guardadas as proporções e particularidades de cada um deles.


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Referências


Alfermann, D. & Stambulova, N. (2007). Career transitions and career termination. In: G. Tenenbaum & R. C. Eklund (orgs). Handbook of Sport Psychology. Hoboken, NJ, USA. John Wiley & Sons.

Bandeira, T. L. (2012). Esporte competitivo: contribuições psicanalíticas e suas implicações para uma compreensão da angústia. Tese (Doutorado em Psicologia) - Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2012.

Coakley, J. (2015). Sports in society: issues and controversies. Nova York: McGraw-Hill Educational. 697 p.

Costa, A. (2001). Corpo e escrita: relações entre memória e transmissão da experiência. Rio de Janeiro: Relume Dumará.

Freud, S. (1913) Totem e tabu. In Obras completas (Totem e tabu, contribuição à história do movimento psicanalítico e outros textos, P. C. de Souza, trad., pp. 13-113). São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012.

Freud, S. (1915) Luto e melancolia. In Obras completas (Vol. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos, P. C. de Souza, trad., pp. 170-194). São Paulo, SP; Companhia das Letras, 2010.

Lavallee, D., Gordon, S., & Grove, J. R. (1997). Retirement from sport and the loss of athletic identity. Journal of Personal and Interpersonal Loss, 2, 129-147.

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Por Fabio Menezes dos Anjos. Criado com Wix.com