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  • Fabio Menezes

Jovens atletas: algumas considerações da Psicologia

Atualizado: Jan 29


Ao contrário da maioria das profissões, a carreira de um atleta envolve muito tempo e esforço antes mesmo de se tornar um profissional, e sem nenhuma garantia de que alcançará tal etapa. Isso ocorre porque a trajetória no esporte de alto rendimento se inicia nas categorias de base, no qual jovens treinam e competem regularmente durante seu desenvolvimento em suas modalidades até a eventual chegada no profissionalismo. Este artigo tem como objetivo discutir que elementos presentes no início da carreira esportiva tendem a gerar sofrimento e dificuldades nesta fase da vida do atleta.

O início da prática esportiva acontece geralmente na infância. Este primeiro contato com o esporte pode ocorrer por interesse da própria criança ou por meio de pais, amigos ou pela escola, nas aulas de educação física. Após um período de experimentação com um ou mais esportes, o jovem atleta se dedicará à formação na modalidade escolhida. A partir daí, haverá o progresso ao longo de várias categorias, em geral delimitadas pela idade dos participantes (sub-13, sub-15, sub-17, etc.).

Uma primeira questão que surge em diversos casos é a necessidade de uma mudança geográfica. Em geral, os principais clubes e centros de treinamentos estão localizados nas grandes cidades, portanto jovens nascidos em cidades menores devem se deslocar para tais lugares para aumentar suas chances de inserção no meio esportivo. Muitas famílias não possuem condições de se mudar com o jovem, portanto um dos primeiros impactos na vida do jovem atleta pode ser este distanciamento dos familiares. Um exemplo disso é o caso do jogador de futebol Andrés Iniesta, que contou em sua autobiografia ter tido sofrido bastante quando se mudou de sua cidade para o alojamento das categorias de base do Barcelona.

Algo que está em jogo para todo atleta desde a iniciação esportiva é a expectativa de outras pessoas sobre sua prática esportiva e seus resultados, como familiares, amigos, empresários e dirigentes. Tais expectativas colocam mais pressão sobre o jovem para que este vença e se desenvolva no esporte. A carreira esportiva é vista socialmente como uma possibilidade de obter independência financeira e ascensão social, além de movimentar grandes quantias de dinheiro. Assim, o sucesso representa não apenas a superação de um obstáculo dentro do esporte, mas da própria condição social, para si e para os familiares.

Um aspecto que tem sido cada vez mais enfatizado nas categorias de base e esportes juvenis competitivos é o que o sociólogo Jay Coakley nomeou de ética do desempenho. Ele define o conceito como “um grupo de ideias e crenças enfatizando que a qualidade da experiência esportiva pode ser mensurada em termos da melhora de habilidade e sucesso competitivo” (2015, p. 88). Neste contexto, aspectos como diversão, socialização e outros ganhos ficam em segundo plano, o foco se dá no desempenho e resultados na modalidade. Tal modo de trabalho pode trazer diversas consequências, como o desgaste físico e psicológico do jovem atleta, lesões por sobrecarga ou uso excessivo e até levar à desistência da modalidade e afastamento do esporte como um todo.

Em nome do alto rendimento e seguindo tal ética, é autorizado que treinadores sejam intimidadores, como estratégia para transformar jovens atletas em vencedores. Há a crença comum de que a menos que os treinadores adotem tal postura, eles não conseguirão treiná-los e motivá-los da maneira mais eficiente e, consequentemente, não os transformarão em esportistas de elite. A relação do atleta com a dor física na prática esportiva também começa a se estabelecer nessa fase da carreira, passando a ser vista como algo natural de uma vida no esporte e mesmo como uma mostra de seu comprometimento e dedicação à sua prática.

Quando a pressão por resultados afeta negativamente outras oportunidades, experiências e relacionamentos dos jovens, muitos se afastam do esporte, por não sentir que a participação vale o esforço. Uma questão que vale a pena ser destacada é que diversos jovens se encontram em tal encruzilhada quando já investiram muito em sua prática, e em alguns casos não têm outras perspectivas de carreira. Em casos como esses, pode haver o prosseguimento dentro da modalidade, mas com o estabelecimento de uma relação ambivalente com a prática esportiva, o que poderá afetar sua saúde mental ao longo da carreira.

A demanda contínua por alto desempenho e a relação com os outros membros da cena esportiva faz com que o atleta esteja sendo constantemente confrontado com um ideal de desempenho e dedicação ao esporte. É esperado que esteja constantemente motivado e buscando o alto rendimento. Assim, uma queda no desempenho ou mesmo a perda de interesse pode levar a um sentimento de inadequação perante os demais ou mesmo de culpa, devido às já citadas expectativas que são colocadas em sua carreira.

Essas são apenas algumas das questões que podem afetar jovens que se inserem no processo de formação esportiva. Não seria possível esgotar todas as possibilidades em um artigo. É importante lembrar que nem todos vão passar por tais situações, e cada um lidará de maneira diferente. Há também problemas particulares que podem afetar os jovens, como questões familiares. É fundamental que surjam mais espaços para que os atletas possam falar sobre as dificuldades que venham a enfrentar. Isto trará melhoras para a saúde mental dos envolvidos, podendo diminuir os níveis de desistência e abandono do esporte, e podendo inclusive melhorar a performance em treinamentos e competições.


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Referências

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Freud, S. (1914) Introdução ao narcisismo. In Obras completas (Vol. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos, P. C. de Souza, trad., pp. 13-50). São Paulo, SP; Companhia das Letras, 2010.

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Rubio, K. (2001). O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Valle, M. P. (2003). Atletas de alto rendimento: identidades em construção. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre.

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Por Fabio Menezes dos Anjos. Criado com Wix.com