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  • Fabio Menezes

Esporte: falando sobre o sofrimento psíquico.


Todos sabemos que algum grau de sofrimento faz parte do esporte, assim como da vida. Este artigo tem como objetivo discutir alguns dos principais fatores que geram o sofrimento no esporte, dando ênfase no aspectos emocionais que estão relacionados com cada um deles. Dentre tais fatores, nesse primeiro momento destacamos os seguintes: as lesões, a pressão por resultados e desempenho, a idealização do atleta e o fim da carreira.

Um dos momentos mais associados ao sofrimento no esporte é o da lesão. Qualquer um que acompanhe algum esporte provavelmente vai se lembrar de uma ou mais lesões de atletas. Em casos mais graves, são imagens fortes, que ficam marcadas para o espectador, como uma fratura ou uma torção no joelho. Todo atleta esta sujeito a lesões variadas e nenhum passa por sua carreira sem se lesionar ao menos algumas vezes. Enquanto lesões leves tiram o atleta de atividade por pouco tempo, lesões mais graves podem afastá-lo de competições por longos períodos e até causar o fim da carreira. Ficar fora de treinamentos e competições tende a ser vivido de maneira angustiante, já que o esportista se vê distante de seu trabalho, enquanto seus colegas e adversários seguem em atividade.

O atleta, ao longo de sua carreira, tem que lidar com pressão de diversas fontes, como de treinadores e dirigentes, de torcedores, de colegas, além de si próprio. Tais pressões e expectativas, em geral ligadas a resultados em treinamentos e competição, geram ansiedade e angústia. Todas estas questões estão ligadas ao ideal que se espera de um atleta: alguém altamente competitivo e determinado, que esteja sempre apto ao alto rendimento e que consiga superar quaisquer obstáculos que se apresentam para ele. Como todo ideal, trata-se de algo inatingível, pois não sobram espaços para dúvidas e inseguranças, que são vistas como fraqueza e rejeitadas no meio esportivo. A pressão por resultados é agravada pelo fato de que derrotas muitas vezes afetam a vida financeira do atleta, já que podem significar a perda de patrocinadores ou o desligamento do clube.



Outra questão que gera sofrimento para muitos atletas é o momento da aposentadoria. Muitos atletas não têm a opção de escolher quando vão se aposentar, já que muitas vezes a carreira esportiva se encerra devido a uma lesão ou à perda de espaço dentro da modalidade. Além disso, o atleta se aposenta numa idade precoce, se comparado a profissionais de outras áreas, e se vê então separado de sua função e do trabalho que ocupou toda a sua vida até então. Isto tende a gerar questionamentos da identidade pessoal e pode levar a problemas como depressão, alcoolismo e isolamento social (embora diversos atletas não passem por isso e tenham uma transição para a aposentadoria bastante tranquila).

Uma outra questão, e que muitas vezes não é abordada ao se falar sobre a vida de esportistas, é que estes também sofrem muitas vezes por problemas particulares, aos quais não estão imunes. É raro ouvirmos falar sobre atletas com problemas conjugais ou familiares, já que a maioria prefira ocultar isto do público. Ainda assim, são problemas que qualquer indivíduo está sujeito a enfrentar, e que geram sofrimento emocional. No caso de esportistas, isto obviamente afetará o desempenho em competições, já que um atleta que esteja passando por uma questão particular dificilmente conseguirá se concentrar tanto quanto poderia em outras circunstâncias.

Cada pessoa sofre à sua maneira. Alguns sofrimentos são mais públicos e óbvios, enquanto outros são bem particulares. O que é constante é que a cultura esportiva “ensina” a naturalizar o sofrimento, sobretudo a dor física, fazendo com que esta passe a ser vista como parte do que é ser atleta. Competir “no sacrifício” é algo comum para o atleta de alto rendimento, e esportistas que não estejam dispostos a lidar com isso tendem a sofrer julgamentos e críticas, sejam estas públicas ou veladas. Há ainda o receio de sofrer consequências, como perder espaço dentro da equipe ou da modalidade como um todo, além do respeito dos colegas. Por tudo isso, é raro que atletas sequer falem sobre suas dificuldades, dúvidas e inseguranças, pois além de tudo o atleta deve parecer forte, novamente surgindo aí a questão do ideal.

Apesar de tudo isso, nos últimos tempos, cada vez mais temos visto atletas de diversas modalidades quebrar este silêncio e falar sobre questões como depressão (como por exemplo o jogador de basquete DeMar DeRozan e os jogadores de futebol Nilmar e Thiago Ribeiro) e ansiedade (como o jogador de basquete Kevin Love ou o ginasta Diego Hypólito), entre outras questões. Essa mudança é positiva, pois quebra a lógica de que o atleta tem que ser forte e não pode expor seu lado humano, com suas fragilidades. Quando um atleta, sobretudo um de renome, se permite ser visto desta forma pelo grande público, aumentam as chances de que outros atletas se autorizem também a se abrir. O próprio Kevin Love admitiu que ver DeRozan falar sobre sua luta contra a depressão o motivou a também falar sobre suas questões. Isto, por sua vez, melhora a condição psicológica do atleta, pois ajuda a quebrar estigmas presentes na cultura esportiva.

Evidentemente não se trata de deixar de lado o rendimento e os resultados em competição e focar apenas no bem-estar emocional dos atletas, pois o foco do esporte de alto rendimento tem como objetivo final a vitória. Ainda assim, é importante que as equipes e federações criem espaços e contratem profissionais que possam ouvir os atletas (e também os demais membros da cena esportiva, como treinadores, por exemplo) e entender o que está em jogo em cada caso. Desta forma, será possível criar um ambiente mais saudável, o que pode inclusive contribuir para melhores resultados. Este é um dos principais objetivos desta página.


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Referências


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Ehrenberg, A. (2010). O culto da performance: da aventura empreendedora à depressão nervosa. Aparecida, SP: Ideias & Letras.

Freud, S. (1914) Introdução ao narcisismo. In Obras completas (Vol. 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos, P. C. de Souza, trad., pp. 13-50). São Paulo, SP; Companhia das Letras, 2010.

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Rubio, K. (2001). O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo. São Paulo: Casa do Psicólogo.

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Por Fabio Menezes dos Anjos. Criado com Wix.com