Erros de arbitragem e seus efeitos

A arbitragem foi considerada decisiva para a derrota de Maria Portela no judô.

Nesses Jogos Olímpicos, como acontece muitas vezes no esporte como um todo, tivemos algumas polêmicas de arbitragem, neste caso em algumas disputas com atletas brasileiros. As duas principais até o momento foram a eliminação de Gabriel Medina na disputa com Kanoa Igarashi na semifinal do surfe, e a derrota de Maria Portela para Madina Taimazova, do Comitê Olímpico Russo, no judô. No caso de Medina, a polêmica foi a nota alta dada para um aéreo do atleta japonês, considerada por muitos desproporcional à técnica realizada e ao critério que vinha sendo utilizado até aquele momento. Já no caso de Maria Portela, a polêmica se deu em decorrência do wazari que a brasileira teria conseguido aplicar na russa, e que não foi dado nem pelo árbitro nem pelo VAR (árbitro de vídeo). Alguns momentos depois, Portela foi eliminada por receber um terceiro shidô (punição do judô), por falta de combatividade. Esta decisão aumentou a polêmica, pois a maioria dos espectadores considerou que Portela foi mais ofensiva ao longo do combate, e ser eliminada por falta de combatividade em uma disputa longa (já havia passado 10 minutos do Golden score) após a questão do wazari não dado foi considerado uma injustiça.


Erros de arbitragem e avaliação não são novidade no esporte. Qualquer um que acompanhe uma ou mais modalidades provavelmente vai se lembrar de diversos. Em alguns esportes, por sua dinâmica, o resultado depende mais de árbitros ou juízes, o que aumenta a possibilidade de polêmicas desse tipo (no boxe, por exemplo, é bem comum que as decisões sejam questionadas não só por atletas e treinadores, mas por especialistas). Ao longo das últimas décadas, houve uma incorporação progressiva de tecnologias para diminuir os erros de arbitragem, mas eles ainda ocorrem em diversas modalidades, muitas vezes com resultados decisivos para uma competição. A proposta deste texto não é discutir erros específicos, mas como os atletas e o público se relacionam com eles e quais efeitos eles podem ter, para além da situação em que ocorreu o erro em si.


Para iniciar a discussão, é importante apontar que a relação com a arbitragem varia entre diferentes modalidades e culturas. No rugby, por exemplo, a relação com o juiz se dá de forma mais respeitosa e o contato se dá apenas entre o juiz e o capitão de cada equipe. Já em modalidades como o futebol, há muito mais reclamação por parte de jogadores, muitas vezes de maneira acintosa, e parte do trabalho do juiz é se impor e coibir esse tipo de comportamento. Já em lutas que envolvem uma pontuação, como boxe e MMA, há a figura do juiz que está no ringue com os lutadores, e também os juízes que fazem a pontuação do combate, com os quais os atletas não tem contato. Em geral, devido à natureza das lutas, não há muito contato verbal mesmo com o juiz do ringue, pois o foco está sempre no adversário, e qualquer distração pode ser fatal. No máximo, há uma reclamação sobre algum golpe baixo ou outro elemento que o juiz não tenha visto, e esta é feita entre os rounds ou quando o juiz separa um clinch entre os lutadores. Em geral, a relação nestes esportes é respeitosa e os atletas devem acatar às orientações do árbitro (embora já tenham acontecido casos de agressões a árbitros). Reclamações são feitas depois da luta, muitas vezes por treinadores e outros membros do estafe do atleta. Nesses esportes, em geral as polêmicas se dão com os juízes que fazem a pontuação dos rounds, que frequentemente são questionadas, mas não há contato destes com os atletas, e qualquer reclamação deve ser direcionada para a comissão atlética.


Outro aspecto a ser apontado sobre erros de arbitragem é que eles podem têm efeitos que vão além do erro em si, e que muitas vezes não são tão evidentes. Eles podem mudar o andamento de uma competição, a confiança de um atleta ou equipe, a concentração e o emocional, entre diversos outros fatores. Assim, é demandado do atleta que ele tenha a capacidade de superar não só o adversário, mas eventuais erros da arbitragem. Não se trata de algo fácil, já que uma competição envolve altos níveis de tensão e concentração, e a percepção de um erro ou injustiça dificilmente não afetará o atleta. Ainda assim, esse tipo de capacidade muitas vezes pode ser a diferença entre uma vitória e uma derrota, sendo portanto algo que atletas, treinadores e psicólogos do esporte devem trabalhar. O treinamento de qualquer atleta de alto rendimento é focado nos aspectos de sua prática que ele pode controlar, o que, evidentemente não inclui a arbitragem. O atleta, porém, é um ser humano com emoções, e é compreensível que este tenha reações a diferentes incidentes que ocorrem em uma competição. A proposta é que o atleta consiga reconhecer sua reação emocional e voltar a um estado de concentração e ativação adequada para o seu melhor rendimento. Para isso, a psicologia esportiva trabalha com diversas técnicas, incluindo meditação e mindfulness. É importante que se busque entender o que funciona melhor para cada atleta, sendo um trabalho progressivo.



A arbitragem da partida entre Itália e Coréia do Sul, na Copa de 2002, é uma das mais polêmicas da história das Copas.

Um último aspecto que gostaríamos de abordar é como os erros de arbitragem são tratados na mídia e por torcedores, e como isso pode impactar atletas. Embora tais situações sejam pontuais em uma competição, a mídia e os torcedores insistirão nesse tema muito após a competição ter terminado. A mídia o faz por ser um assunto polêmico e que tende a aumentar a audiência, e os torcedores, devido ao seu investimento emocional na competição. Nós pudemos observar isso nitidamente nos casos citados no início deste artigo, durante as Olimpíadas. A indignação dos narradores e comentaristas durante a transmissão tanto do surge quanto do judô, era nítida, e continuou nos programas dos dias seguintes. O mesmo ocorreu com os torcedores que fizeram comentários em sites e sobretudo nas redes sociais. Claro que os Jogos Olímpicos são o auge do Esporte (juntamente com a Copa do Mundo) e há um grande envolvimento emocional da maioria das pessoas com os atletas do país, então não surpreende que haja tal repercussão. Mas isso pode afetar os atletas de algumas formas. Primeiramente, o atleta, após uma competição, pode se encontrar em duas situações distintas: ele pode ter uma nova competição em breve, ou pode ter encerrado sua participação na temporada, entrando em férias. Se ele vai entrar em férias, é importante para sua saúde mental que ele consiga se desligar do acontecimento, inclusive para poder descansar e recarregar as energias para a temporada seguinte. A insistência nesse assunto por parte da imprensa e dos torcedores pode ser um empecilho para isso, fazendo o atleta reviver o ocorrido diversas vezes (o que tende a acontecer naturalmente, em alguma medida). Caso o atleta ainda vá competir, é importante que ele consiga deixar o ocorrido de lado para se concentrar na próxima disputa. Em alguns casos, é possível que o atleta use o erro da arbitragem como motivação para obter um desempenho melhor na partida seguinte, mas é uma estratégia delicada e que pode ter o efeito contrário, mas entraremos nesse ponto em um artigo futuro. Ao entrar em uma competição pensando no que o árbitro (que provavelmente não será o mesmo) vai fazer, a tendência é que o nível de concentração seja menor, e o atleta ainda estará mais sensível a decisões da arbitragem, e pode interpretar uma decisão como tendo sido tomada deliberadamente para prejudica-lo. Assim, os níveis de tensão se tornam mais elevados, o que na grande maioria das vezes prejudica o desempenho esportivo.


Nesse ponto, cabe uma última reflexão. É comum que haja, por parte de alguns membros da mídia e de torcedores, uma narrativa quanto a árbitros específicos (ou de algumas nacionalidades) como sendo mal-intencionados e predispostos a prejudicar determinado atleta ou time (em geral, o time do coração do torcedor). É o que chamam popularmente de roubo, algo bastante comum no esporte. Isso pode se tornar um problema (sem entrar no mérito de casos de violência e ameaças, é claro) quando passa a haver uma predisposição a achar que o atleta será prejudicado quando aquele juiz é o responsável pela partida. Tais narrativas podem chegar ao atleta e afetar o seu emocional na competição, principalmente quando o juiz de fato comete algum erro ou toma uma decisão questionável (independente de qual seja a sua intenção). Assim, o atleta deve evitar “comprar” tais narrativas e desempenhar o seu melhor, independente do que o árbitro venha a fazer. Depois da partida, quando já tiver feito tudo que estava ao seu alcance, ele poderá criticar, reclamar, lamentar, e deverá encontrar formas de lidar com o que transcorreu durante a partida. Esse é um ponto no qual o trabalho com um psicólogo poder ajudar. A maneira como cada atleta lida com um erro de arbitragem ou com uma derrota é algo singular, portanto é importante oferecer esse espaço para que ele possa falar sobre seus sentimentos e eventuais frustrações. Elaborar tais questões pode inclusive ter efeitos na performance e consequentemente nos resultados futuros do atleta, pois sabemos que, no esporte de alto rendimento, cada detalhe pode fazer a diferença.


E para você, caro leitor (seja atleta ou não), qual erro de arbitragem foi mais marcante na sua relação com o esporte? Como você acha que erros podem afetar os atletas? Comente abaixo e vamos trocar ideias a respeito!