A importância da decisão de Simone Biles


Os Jogos Olímpicos sempre são palco de situações marcantes e cenas que entram para a história. Muitos momentos históricos são lembrados mesmo décadas depois, como o triunfo de Jesse Owens em Berlim em 1936 ou a nota 10 de Nadia Comaneci em Montreal, em 1976, para citar apenas dois exemplos, e bem distintos. Os Jogos de Tóquio deste ano não são diferentes, e certamente algumas das imagens ficarão em nossas memórias por muito tempo. Para nós, brasileiros, provavelmente as medalhas de Rebeca Andrade na ginástica e Rayssa Leal no skate serão as mais marcantes, mas aguardemos até o fim das competições para saber que outros momentos memoráveis acontecerão. Um dos momentos desta Olimpíada que provavelmente mais ficarão marcados para o esporte aconteceu justamente pela não participação em uma prova: a decisão de Simone Biles, ginasta americana, de não participar das finais da competição por equipes, além da final individual geral e das provas do salto, das barras assimétricas e do solo. Mas por que Simone Biles decidiu não participar, e por que isso é importante? É isso que vamos discutir nesse texto.


Primeiramente, vamos contextualizar um pouco a situação. Simone Biles é uma das principais atletas do mundo e uma das grandes estrelas destes Jogos Olímpicos. Nos Estados Unidos, é considerada de forma praticamente unânime a maior ginasta de todos os tempos, e todos contavam com suas performances para a conquista de várias medalhas de ouro. Nos Jogos de 2016, no Rio, ela teve um desempenho brilhante, conquistando quatro medalhas de Ouro. Outro ponto é que Simone Biles foi uma das inúmeras crianças e adolescentes que foram assediadas sexualmente por Larry Nassar, médico do time americano, o que deixou marcas, segundo a própria. Alguns dias antes de sua estreia nos Jogos Olímpicos de Tóquio, afirmou estar sentindo “o peso do mundo” em seus ombros.


Falando sobre a ginástica, trata-se de uma modalidade que exige muito do corpo, e oferece riscos sérios no caso de erros ou acidentes. Para sua prática, portanto, é fundamental que a atleta esteja se sentindo confiante e segura de que vai executar bem os movimentos e técnicas, o que não era o caso de Biles. Ela afirmou ter sentido o que se chama de twisties, que faz com que a atleta perca a percepção e noção de espaço, além de prejudicar a coordenação motora. E o agravante neste caso é que ela sentiu isso em pleno salto, o que contribuiu para sua insegurança e sua decisão de não competir. Não é possível dizer ao certo quanto cada um dos vários fatores em jogo pesou em sua decisão de não participar das provas em questão, mas houve um ponto onde a atleta decidiu que deveria parar e cuidar de si mesma: “Assim que eu piso no tablado, sou só eu e a minha cabeça, lidando com demônios. Tenho que fazer o que é certo para mim e me concentrar na minha saúde mental e não prejudicar minha saúde e meu bem-estar. Há vida além da ginástica”.


Após sua decisão, Simone Biles alegou estar se sentindo insegura e sob excessiva pressão, e que seu objetivo era se preservar mentalmente. Em entrevista coletiva no dia 27/07, afirmou: “Tenho que colocar minha saúde mental como prioridade. Não vejo problema em desistir de grandes competições para focar em você porque mostra força como competidora e como pessoa”. Ela acrescentou: “Eu digo ponha sua saúde mental em primeiro lugar. Por que se você não fizer isso, então você não vai desfrutar do seu esporte e você não vai ter tanto sucesso quanto quer. (...) Então é ok às vezes ficar de fora das grandes competições para focar em si mesmo, porque isso mostra quão forte você é como competidor e pessoa, mais do que só batalhar contra isso”. E qual a importância dessa decisão, para ela e para outros atletas? É isso que vamos discutir agora.



Simone Biles Rio 2016
Fonte: Rebecca Blackwell/imageplus

O princípio norteador do esporte profissional é o alto rendimento atlético, a performance em competição. Dentro desse meio, é esperado que atletas estejam sempre buscando evoluir dentro de sua modalidade, aprimorar suas técnicas, melhorar seus resultados e, para isso, sacrifícios são necessários, desde passar períodos longe da família, se adequar a uma rotina de treinos, e também lidar com a pressão constante por resultados. Outro aspecto é que os atletas devem saber (ou aprender) a lidar com a dor ao longo de suas carreiras. Em geral, pensamos nisso com relação à dor física, como treinar e jogar “no sacrifício”, que é algo que é naturalizado no esporte. Um jogador que está constantemente no departamento médico muitas vezes recebe o apelido pejorativo de “chinelinho”. Da mesma forma, se recusar a jogar por estar com dores, principalmente se não for visto como uma lesão séria, que de fato impeça a participação em uma competição, tende a fazer com que o atleta seja mal visto por torcedores e até por colegas e pela comissão técnica. É como um código de conduta, um traço que identifica socialmente o atleta.

O que Biles fez com sua decisão de não competir, na verdade, foi romper com isso. Quando ela diz “há vida além da ginástica”, isso pode ser aplicado a qualquer esporte, e é uma mensagem importante vinda de uma das maiores estrelas do mundo. Rapidamente diversos atletas de diferentes modalidades demonstraram seu apoio a ela. O fato de Simone ter colocado sua saúde física e mental acima de resultados competitivos ou mesmo de sua participação nas Olimpíadas, é importante por servir como um exemplo para outros atletas de que é possível seguir outra lógica na carreira esportiva. Justamente por se tratar de uma grande estrela do esporte, essa mensagem ganha maior visibilidade, e coloca em pauta discussões sobre esse assunto. Podemos pensar que se isso tivesse acontecido com uma atleta pouco conhecida, talvez se tornasse notícia brevemente, mas certamente cairia no esquecimento rapidamente. Quando se trata de alguém do tamanho e da representatividade de Biles, não há como não se tornar uma discussão mais ampla.


É importante que atletas de alto rendimento sintam que há espaço para manifestar seus incômodos, inseguranças e dúvidas dentro do esporte. Para isso, é fundamental que haja uma equipe disposta a ouvir e acolher tais questões, e nesse ponto é interessante que a equipe conte com um profissional de psicologia. Algumas pessoas tendem a acreditar que abrir espaço para a manifestação de fragilidades no esporte pode levar a uma queda no desempenho ou na competitividade de atletas. Podemos pensar justamente o contrário: a partir do momento em que o atleta se sente acolhido e respeitado em sua individualidade, e sente que pode dar um tempo e cuidar de si caso precise, ele provavelmente se sentirá mais confiante e à vontade para exercer sua prática. Isso, por sua vez, tende a se traduzir em melhores resultados. Mas para isso, é preciso darmos vários passos adiante no que diz respeito a como lidamos com a saúde mental no esporte. Felizmente, Simone Biles deu um passo enorme nesse sentido nos Jogos Olímpicos de Tóquio.


O que você achou da situação e da decisão de Simone Biles? Que efeitos você acha que isso pode ter para o esporte? Comente abaixo e vamos discutir a respeito!