A ida de Messi para o PSG e algumas questões sobre transferências

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Messi é apresentado ao PSG. Fonte: Divulgação Paris Saint-Germain


Na última semana, o mundo do esporte foi pego de surpresa com a notícia que Lionel Messi não continuaria no Barcelona, clube do qual fez parte desde seus 13 anos. Rapidamente, o Paris Saint-Germain se mobilizou para contratar o argentino, transferência que segue repercutindo em praticamente todas as discussões sobre futebol. Nesse artigo, nossa proposta é discutir alguns aspectos da transferência de Messi e também algumas questões sobre mudanças de equipe em geral e os impactos que elas podem causar.


Primeiramente, falemos da situação de Messi. O argentino é considerado o maior jogador da história do Barcelona e um dos maiores da história do futebol (para alguns, é o maior da história, mas essa é uma outra discussão). Como falamos, estava no Barcelona desde os 13 anos e, ao longo desses anos, subiu para o profissional, ganhou protagonismo dentro do time, enfileirou diversos títulos e se tornou o grande ídolo do clube. Ano passado, frustrado com a situação da equipe, decidiu que queria sair, e se envolveu numa polêmica com o presidente do clube, que não o liberou, embora houvesse um acordo prévio entre ambos para sua liberação. Após continuar por mais um ano, Messi decidiu que gostaria de continuar no Barcelona e deixou isso claro, inclusive aceitando reduzir seu salário pela metade, para ajudar as finanças do clube. Apesar disso, devido à condição financeira do Barcelona e às regras de fair play financeiro (resumidamente, o clube não pode gastar mais do que um limite relacionado ao quanto arrecada), não foi possível renovar seu contrato mesmo com a redução salarial. A notícia pegou o mundo de surpresa, pois o acerto entre Messi e Barcelona já havia sido noticiado, e a expectativa era que a assinatura de um novo contrato fosse mera questão de formalidade.



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Messi se emociona na despedida do Barcelona. Fonte: Getty Images.

Após a definição de que não seria possível continuar no Barcelona, Messi se viu na situação de ter que se juntar a uma nova equipe. Obviamente, não podemos saber ao certo quais fatores influenciaram em sua escolha pelo PSG, e o quanto cada fator pesou, mas podemos discutir algumas questões relacionadas à situação e sugerir algumas hipóteses. Ao que tudo indicava, os principais clubes que teriam condições financeiras de contratar Messi eram o próprio PSG e o Manchester City, da Inglaterra (embora boatos tenham colocado os também ingleses Chelsea e Arsenal como interessados, mas com poucas chances). Ao mudar de time, todo jogador tem que pesar diversos fatores. No novo local, ele vai encontrar novos companheiros, um novo treinador e, frequentemente, uma nova liga, cidade ou mesmo país, o que pode gerar dificuldades de adaptação. No caso de Messi, por se tratar de um dos melhores jogadores da história, dificilmente a preocupação com a adaptação dentro de campo terá sido um fator decisivo para a escolha de uma nova equipe. Ainda assim, há alguns fatores a se considerar: Messi já está na fase final de sua carreira, aos 34 anos, e expressou seu desejo de conquistar mais títulos, portanto faz sentido buscar uma equipe que o coloque em condições de brigar pelas principais competições (o que inclui ambos PSG e Manchester City). Além disso, o elenco do PSG é recheados de amigos de Messi, como Neymar, di Maria, Paredes, entre outros jogadores, fazendo com que a adaptação ao novo ambiente e o clima no vestiário tenda a ser muito mais atraente para o argentino. Embora o técnico do Manchester City seja Pep Guardiola, com quem Messi já trabalhou e teve alguns de seus melhores momentos no Barcelona, no PSG o treinador é seu conterrâneo, Mauricio Pochettino.



Além disso, Messi é casado e tem três filhos pequenos, portanto há o aspecto familiar a se considerar. As opções em termos de cidades eram Paris e Manchester, cidades bem distintas. Paris, no caso, se aproxima muito mais em termos de clima e estrutura de Barcelona, cidade onde seus filhos cresceram. Para um jogador que já conquistou praticamente tudo em sua carreira, não podemos subestimar o peso que a família possa ter em sua decisão. Somando todos esses fatores, observamos que diversos elementos tornaram o PSG uma opção bastante atraente para Messi. Claro que é uma decisão singular, e mesmo com tudo isso, Messi poderia ter se sentido mais atraído pelo Manchester City ou mesmo por outra equipe, por inúmeros fatores. Podemos pensar que escolher o clube inglês significaria um desafio maior, o que pode ser um fator motivacional para muitos atletas, mas talvez não fosse uma prioridade para o craque argentino neste momento.

Um ponto que consideramos importante abordar nesse artigo é que a experiência de Lionel Messi é uma exceção no meio do esporte. É raro que os grandes atletas de cada modalidade se encontrem sem contrato e podendo escolher entre várias equipes interessadas. Outro caso aconteceu alguns anos atrás com LeBron James, astro do basquete, que terminou seu contrato com o Cleveland Cavaliers e teve várias equipes interessadas por ele, e acabou escolhendo o Los Angeles Lakers. A diferença é que o Cleveland Cavaliers ainda queria contar com LeBron, e a mudança de equipe partiu dele. Ao contrário destes casos, a realidade para a enorme maioria dos atletas é correr o risco de não ter muitas opções interessantes ao final de seus contratos, tendo que aceitar as propostas que surgirem, que podem vir de equipes ou ligas menores. Isso dá um caráter de urgência para as performances em competição, pois é mantendo um bom desempenho que o atleta se manterá em visibilidade e podendo despertar o interesse de grandes equipes, além da equipe da qual faz parte. Nos esportes americanos, a questão é ainda mais delicada, já que os atletas podem ser trocados entre equipes independente da vontade do jogador. Desta maneira, é possível que de repente o atleta e sua família tenham que se mudar para outra cidade e recomeçar suas vidas subitamente.


Para além dos aspectos práticos de tais mudanças, tais mudanças podem ter impactos emocionais para os atletas. Não ter seu contrato renovado por sua equipe e/ou não ter outras grandes equipes interessadas tende a ser um momento de grande frustração, podendo causar impactos na auto estima e na identidade do atleta. Ao chegar em uma equipe nova, há a necessidade de “mostrar serviço” para conquistar seu espaço, o que pode gerar ansiedade e até dificuldades de relacionamento com os novos colegas. Todos esses fatores podem prejudicar o desempenho competitivo, dificultando a concentração e a tomada de decisões em campo. É importante que o atleta esteja atento para que isso não se torne um círculo vicioso, com a ansiedade por resultados afetando sua performance, e as performances abaixo do esperado aumentando a ansiedade.


Como lidar com isso então? Acima de tudo, é importante que o atleta tenha uma rede de apoio, como familiares e amigos, com quem possa compartilhar as dificuldades e inseguranças geradas pelo processo. A maneira como vai se inserir na nova equipe também é importante, já que isso influenciará como será o ambiente com os novos colegas e a comissão técnica. Outro ponto importante é que o atleta tente descobrir mais sobre o novo lugar e encontre formas para que ele e sua família se sintam confortáveis e situados. Finalmente, em termos de desempenho, é interessante que o atleta tente focar nos aspectos de sua prática que ele pode controlar de alguma forma, como seu esforço nos treinamentos, seus hábitos alimentares, entre outros. À partir do momento que o foco passa a estar em questões fora de seu controle, a tendência é que isso gere maior ansiedade e tensão, e isso em um momento de mudanças tende a tornar as coisas ainda mais complicadas.

Um último ponto que gostaríamos de abordar é o seguinte: sempre que ficamos sabendo de uma notícia relacionada a um grande jogador, seja de futebol, seja de outra modalidade, é interessante pensarmos nos casos de jogadores menos famosos, que por sua vez são os mais comuns. Em geral, não ficamos sabendo das experiências que tais indivíduos vivem, e estas tendem a ser bastante diferentes, já que há menos visibilidade e impacto para as equipes, chamando menos a atenção do público. Assim, poucos perguntam ao atleta como ele se sente ou o que pode ser feito para ajuda-lo, e é raro que ele tenha patrocinadores e outros apoiadores para auxiliar a lidar com o processo. Sendo assim, é importante que ao mesmo nós desviemos o olhar também para tais casos, tanto para que tenhamos uma compreensão melhor das dinâmicas mais complexas do esporte profissional, como para poder oferecer alguma forma de ajuda.